Redação ENEM 2023
Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil
A proposta pedia a discussão dos obstáculos para tornar visível e reconhecido o trabalho de cuidado (com crianças, pessoas idosas, doentes e com a casa) que recai sobre as mulheres no Brasil. Os textos motivadores tratavam do conceito de trabalho de cuidado não remunerado ou mal pago, de dados oficiais sobre o tempo que mulheres e homens dedicam a afazeres domésticos e cuidados, de um estudo do Ipea sobre a concentração dessas tarefas nas famílias, sobretudo nas mulheres, e de uma ilustração sobre o aumento da demanda por cuidados no país.
Tema oficial: INEP
O recorte que não pode faltar
O texto deve discutir por que o trabalho de cuidado feito pelas mulheres permanece invisível (não reconhecido como trabalho, não remunerado ou mal pago) e quais desafios existem para enfrentar essa invisibilidade no Brasil: mulher, cuidado, trabalho e invisibilidade precisam aparecer juntos.
Como não fugir do tema
- Falar do trabalho da mulher em geral (mercado de trabalho, diferença salarial, rotina) sem mencionar o cuidado ou a sobrecarga que ele gera.
- Tratar o cuidado como vocação, dom ou 'função natural' da mulher, sem reconhecê-lo como trabalho.
- Discutir a divisão do trabalho entre homens e mulheres de forma ampla, sem relacioná-la ao trabalho de cuidado.
Três caminhos de argumentação
1.Naturalização cultural do cuidado
Argumente que o cuidado é socialmente visto como expressão de afeto ou 'instinto' feminino, e não como trabalho. Explique que essa ideia é construída desde a infância, na divisão de brinquedos e tarefas domésticas. Contraste com a Lei nº 15.069/2024, que define o cuidado como trabalho necessário à sustentação da vida, da sociedade e da economia.
2.Sobrecarga e custo invisível para as mulheres
Mostre que o tempo gasto com cuidado não remunerado limita as oportunidades de estudo, de emprego e de renda das mulheres, além de afetar sua saúde e seu tempo livre. Relacione isso à meta 5.4 dos ODS, que pede o reconhecimento e a valorização desse trabalho. Inclua também a face remunerada: quem cuida por salário, como as trabalhadoras domésticas, também enfrenta desvalorização.
3.Falta de estrutura pública e de corresponsabilidade
Argumente que, sem creches, serviços para pessoas idosas e apoio a pessoas com deficiência, o cuidado recai sobre as famílias e, dentro delas, sobre as mulheres. A Constituição já estabelece igualdade de direitos e deveres entre homem e mulher na sociedade conjugal. A Política Nacional de Cuidados propõe justamente a corresponsabilidade entre Estado, famílias, setor privado e homens e mulheres.
Repertórios com fonte
Só referências que você pode conferir na fonte oficial.
Lei nº 15.069/2024 (Política Nacional de Cuidados)
A lei define cuidado como trabalho cotidiano necessário à sustentação da vida e da economia (art. 5º, I) e tem entre seus objetivos o reconhecimento, a redução e a redistribuição do trabalho não remunerado de cuidado, realizado principalmente pelas mulheres (art. 4º, VI). É o repertório mais direto para o tema.
Ver fonte →Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, meta 5.4
A meta propõe reconhecer e valorizar o trabalho de cuidado e o trabalho doméstico não remunerados por meio de serviços públicos, infraestrutura, proteção social e divisão de responsabilidades dentro de casa. Ajuda a fundamentar a proposta de intervenção.
Ver fonte →Constituição Federal, art. 5º, I, e art. 226, § 5º
O art. 5º, I, afirma que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações; o art. 226, § 5º, estabelece que os direitos e deveres da sociedade conjugal são exercidos igualmente por ambos. Use para contrastar a igualdade formal com a divisão desigual do cuidado.
Ver fonte →Lei Complementar nº 150/2015 (contrato de trabalho doméstico)
A lei regula o trabalho doméstico remunerado. Serve para discutir que o cuidado pago também faz parte do tema e que ter regras em lei não basta se a atividade continua socialmente desvalorizada.
Ver fonte →Uma proposta de intervenção completa
Com os cinco elementos que a cartilha do INEP pede. Entenda a Competência V →
- Ação
- ampliar a oferta pública de serviços de cuidado, como creches em período integral e centros-dia para pessoas idosas
- Agente
- os municípios, com apoio técnico e financeiro da União no âmbito da Política Nacional de Cuidados
- Meio
- repasse de recursos vinculado a metas de cobertura, com prioridade para os bairros de maior demanda
- Efeito ou finalidade
- redistribuir o trabalho de cuidado hoje concentrado nas mulheres, permitindo que elas estudem, trabalhem e tenham tempo para o autocuidado
- Detalhamento
- em paralelo, as escolas devem promover rodas de conversa sobre a divisão igualitária das tarefas domésticas entre meninos e meninas, atacando a raiz cultural do problema
Escreveu sobre este tema? Mande para correção
Uma especialista humana corrige pelas cinco competências e mostra o que treinar a seguir.
Enviar minha redação grátisSua primeira correção é gratuita. Sem cartão, sem compromisso.
Perguntas sobre este tema
- Posso falar da dupla jornada?
- Sim, mas a dupla jornada precisa aparecer ligada ao cuidado com filhos, pessoas idosas, doentes e a casa. Falar só de mercado de trabalho leva ao tangenciamento.
- O cuidado feito por trabalhadoras domésticas pagas entra no tema?
- Entra, porque o tema trata de invisibilidade e desvalorização, e o trabalho mal pago também faz parte do problema, desde que o foco continue nas mulheres.
- Preciso falar dos homens?
- Não é obrigatório, mas discutir a corresponsabilidade masculina costuma fortalecer a argumentação e a proposta. O que não pode é centrar o texto em cuidado feito exclusivamente por homens.
Treine com outros temas
- ENEM 2025Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira
- ENEM 2024Desafios para a valorização da herança africana no Brasil
- ENEM 2022Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil
- ENEM 2021Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil