Redação ENEM 2015
A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira
A proposta pedia um texto dissertativo-argumentativo sobre por que a violência contra a mulher continua presente no Brasil, com proposta de intervenção que respeitasse os direitos humanos. Os textos motivadores traziam dados históricos sobre assassinatos de mulheres no país, um gráfico com os tipos de violência relatados à Central de Atendimento à Mulher, uma imagem de campanha contra o feminicídio e um infográfico sobre os efeitos da Lei Maria da Penha na Justiça.
Tema oficial: INEP
O recorte que não pode faltar
A palavra “persistência”: não basta descrever a violência contra a mulher; é preciso explicar por que ela continua existindo apesar das leis e dos avanços, sempre no recorte da sociedade brasileira.
Como não fugir do tema
- Escrever apenas sobre a violência contra a mulher em geral (definições, tipos, exemplos) sem discutir por que ela persiste.
- Desviar para violência urbana em geral ou para desigualdade no mercado de trabalho sem relacionar essas questões à violência contra a mulher.
- Tratar do problema em outros países ou de forma universal, sem o recorte da sociedade brasileira.
Três caminhos de argumentação
1.Raízes culturais: machismo e naturalização da violência
Mostre que a violência se apoia em uma cultura que ainda enxerga a mulher como subordinada ao homem e trata agressões como “briga de casal”. Explique como papéis de gênero estereotipados, reproduzidos na família e na mídia, tornam a violência invisível ou aceitável. A própria Lei Maria da Penha reconhece esse mecanismo ao prever, entre suas diretrizes, o combate a papéis estereotipados nos meios de comunicação. Conclua o parágrafo ligando essa naturalização à persistência do problema.
2.A distância entre a lei e a proteção efetiva
Reconheça que o Brasil tem legislação específica (Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio como crime autônomo) e use isso para mostrar que a lei, sozinha, não basta. Discuta fatores que afastam a vítima da denúncia, como dependência econômica e emocional, medo de retaliação e atendimento despreparado. Relacione esses fatores à persistência: quando a vítima não denuncia ou não é protegida, o ciclo da violência se repete.
3.Educação como prevenção
Argumente que enfrentar a persistência exige agir antes da agressão, formando crianças e adolescentes para relações baseadas no respeito. Cite a Convenção de Belém do Pará, que compromete o Estado a modificar padrões culturais inclusive por meio da educação, e a inclusão desse conteúdo nos currículos escolares. Mostre que a escola é espaço privilegiado para reconhecer sinais de violência, inclusive psicológica e patrimonial, que costumam ser menos percebidas.
Repertórios com fonte
Só referências que você pode conferir na fonte oficial.
Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), arts. 7º e 8º
O art. 7º lista as formas de violência doméstica (física, psicológica, sexual, patrimonial e moral), útil para mostrar que o problema vai além da agressão física; o art. 8º prevê campanhas educativas e conteúdos sobre violência contra a mulher nos currículos escolares, o que sustenta propostas de prevenção.
Ver fonte →Lei nº 14.994/2024 (feminicídio como crime autônomo, art. 121-A do Código Penal)
Mostra que o país endureceu a resposta penal ao assassinato de mulheres por razões da condição do sexo feminino; use para argumentar que, mesmo com leis rigorosas, a violência persiste, o que exige ações também preventivas.
Ver fonte →Lei nº 14.164/2021 (conteúdo sobre prevenção da violência contra a mulher nos currículos e Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher)
Base legal para uma proposta de intervenção centrada na escola: a lei incluiu o tema como conteúdo transversal na educação básica e criou uma semana anual, em março, dedicada ao assunto.
Ver fonte →Convenção de Belém do Pará (Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher), promulgada pelo Decreto nº 1.973/1996, art. 8
Repertório internacional que compromete o Brasil a modificar padrões sociais e culturais que sustentam a ideia de inferioridade da mulher, inclusive por programas educacionais; reforça o eixo cultural.
Ver fonte →Constituição Federal, art. 226, § 8º
Estabelece que o Estado deve criar mecanismos para coibir a violência no âmbito das relações familiares; use para cobrar a responsabilidade do poder público.
Ver fonte →Uma proposta de intervenção completa
Com os cinco elementos que a cartilha do INEP pede. Entenda a Competência V →
- Ação
- Transformar a prevenção da violência contra a mulher em trabalho contínuo nas escolas, com formação de professores e atividades com estudantes e famílias.
- Agente
- Ministério da Educação, em parceria com as secretarias estaduais e municipais de educação.
- Meio
- Cursos de formação docente e material didático sobre a Lei Maria da Penha, as formas de violência e os canais de denúncia, aplicados em rodas de conversa e projetos interdisciplinares.
- Efeito ou finalidade
- Desnaturalizar comportamentos abusivos desde a adolescência e fazer com que vítimas e testemunhas reconheçam a violência e saibam onde buscar ajuda, rompendo o ciclo que explica sua persistência.
- Detalhamento
- As atividades devem acontecer ao longo de todo o ano letivo, e não apenas na semana escolar prevista em lei, dando destaque às violências psicológica e patrimonial, que costumam ser menos reconhecidas.
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Perguntas sobre este tema
- Posso usar a Lei Maria da Penha se ela já aparecia nos textos motivadores?
- Pode, mas não basta citá-la: o repertório ganha valor quando você usa um ponto específico da lei (como as formas de violência do art. 7º) para sustentar seu próprio argumento, sem copiar a coletânea.
- Preciso falar de feminicídio?
- Não é obrigatório. O feminicídio é a forma mais extrema dessa violência, mas o tema abrange também violências psicológica, moral, sexual e patrimonial, e discutir essas formas menos visíveis ajuda a explicar a persistência.
- Posso propor penas mais duras como intervenção?
- Pode, desde que respeite os direitos humanos. Mas, como o tema destaca a persistência mesmo com leis rigorosas, propostas ligadas à prevenção, à educação e ao acolhimento da vítima costumam dialogar melhor com o recorte.
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